VOCÊ TEM FOME DE QUÊ?

Nº47



19 DE ABRIL, 2018


O alimento sempre teve papel de protagonista na história evolutiva do homem. 


Bem no início desta jornada, há 200 mil de anos, o aprimoramento das técnicas de caça-coleta e o domínio do fogo possibilitaram uma dieta mais rica em proteína e gordura, mais fácil também de ser mastigado e digerido. Em um sentido evolutivo, literalmente somos o que comemos.


A evolução alimentar possibilitou a redução considerável da mandíbula e a otimização da energia do alimento, abrindo espaço para um cérebro maior em ritmo acelerado de crescimento e, por tabela, à Revolução Cognitiva. Esse foi o primeiro grande salto evolutivo do homem sapiens.


A cerca de 12 mil anos, outra importante mudança na nossa trajetória teve o alimento como ator fundamental: a Revolução Agrícola.


A domesticação de plantas e animais foi uma das inovações mais disruptivas da história da humanidade. A partir dela, passamos a produzir uma quantidade muito maior de proteína e carboidratos que os ecossistemas naturais nos forneciam através da caça e da coleta. Com isso nos multiplicamos, as tribos tornaram-se vilas e, em pouco tempo, cidades. No entanto, todo esse progresso veio a um alto custo.


Ao longo da história da agricultura[1], cerca de 7 mil espécies comestíveis foram domesticadas e cultivadas. Atualmente apenas 120 são cultivadas de forma sistemática, sendo que aproximadamente 90% da alimentação mundial provém de oito espécies animais e doze vegetais, sendo que quatro destas (arroz, trigo, milho e batata) fornecem mais da metade das calorias da dieta humana.


Esta pasteurização do capital natural[2] planetário tem colocado em xeque alguns dos pilares do nosso desenvolvimento. Os grandes latifúndios monocultores são hoje um dos principais responsáveis pela conversão da rica biodiversidade  em campos monótonos.


Essa monotonia genética tem suas conseqüências, como o impacto no ciclo de nutrientes  e a alta suscetibilidade à pragas naturais, tornando o agrobusiness extremamente dependente de insumos como fertilizantes e defensivos. Por fim, mas não menos importante, a indústria alimentícia como um todo acompanhou esse processo de especialização, dando escala global a uma dieta pobre em nutrientes.


Alimentar nossa comunidade planetária respeitando critérios de sustentabilidade e saudabilidade é um dos grandes desafios atuais. O reconhecimento deste desafio tem fortalecido práticas alternativas de cultivo e criação, como os alimentos orgânicos.


Mas do que adianta ser orgânica uma produção de milhares de hectares de soja, milho ou qualquer outro cultivo? A simples substituição de insumos industriais por naturais na produção não resolverá totalmente o desafio.


Felizmente, as práticas de produção integrada têm ganho cada vez mais espaço no setor. Das mais simples como a integração lavoura-pecuária, às diversas técnicas de cultivo em agroflorestas, estamos buscando re-aprender a sabedoria da diversidade, do campo à mesa.


Surge assim a possibilidade e a necessidade de uma nova  grande revolução humana e alimentar, a disseminação de paisagens produtivas sustentáveis e o ajuste de toda a cadeia de alimentos e bebidas à esse novo paradigma.


Os sistemas agroflorestais se utilizam da sabedoria dos ciclos naturais e das particularidades regionais para definir as espécies a serem produzidas. Assim, utilizam-se de serviços ecossistêmicos como vantagens competitivas ao invés de erodi-los, garantindo maior resiliência climática, fertilidade do solo e proteção contra pragas.


Assim, obtêm o desejado alimento orgânico de forma harmônica com os processos naturais e, quase que como um bônus, a conservação da biodiversidade e processos naturais que garantem a própria sustentabilidade da paisagem.


E como nós consumidores conscientes, na outra ponta da cadeia, podemos contribuir com essa revolução? Aqui a palavra de ordem é o equilíbrio, sem a necessidade de radicalizar.


Estudos apontam que os humanos modernos estão aptos a suprir suas necessidades nutricionais usando uma ampla variedade de estratégias. Tomemos como exemplo a dieta dos nossos antepassados das cavernas ou a dos chineses contemporâneos: abusar do consumo de vegetais, reduzir o consumo de proteína animal e, aos mais engajados, incluir insetos na dieta (que além de nutritivos têm aos bilhões nesse mundo). Viva a diversidade!


Roberto Strumpf – Diretor da Pangea Capital


Pangea Capital acredita nas paisagens produtivas sustentáveis como solução para o desafio de uma alimentação sustentável, sudável e inclusiva. Nossos projetos buscam reduzir o impacto e aumentar a resiliência de monoculturas tradicionais, além de mensurar e valorar impactos positivos de uma produção diversificada e integrada aos processos naturais.


[1] Referência para uma leitura de aprofundamento: Agroecologia - reconciliando agricultura e natureza http://aspta.org.br/wp-content/uploads/2012/05/Agroecologia-reconciliando-agricultura-e-natureza.pdf

[1] Capital natural é o estoque de ativos ambientais ou recursos providos pela natureza (renováveis e não renováveis), que se combinam produzindo um fluxo de benefícios para a sociedade, conhecidos como serviços ecossistêmicos.

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