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SETEMBRO CHOVE?

Nº17



01 DE SETEMBRO, 2014


O Rio Amazonas, o Aquífero Guarani e 12% de toda a água doce do mundo são argumentos inquestionáveis: o Brasil é uma potencia hídrica mundial.


Apesar desta bênção, a constatação de que somos filhos de berço esplêndido e gigante pela própria natureza, alimenta, desde os tempos de colônia, a cultura da abundância e desperdício que permeia todo o país.


Portanto, com exceção de regiões pobres e áridas do Nordeste, a falta d’água é incompatível com nosso currículo, ou pelo menos era. Com o verão mais seco desde 1984, o Sistema Cantareira[1] vê os níveis de seus reservatórios caírem para cerca de alarmantes 14% da sua capacidade. Em agosto de 2013, esse valor era de 54%. Para piorar o cenário, as previsões de chuvas para setembro e os meses seguintes não são das melhores, como mostra o vídeo publicado pelo Climatempo.


Os impactos do homem no clima do planeta são muitas vezes citados como um agravante desse problema, mas a situação do Sistema Cantareira trata-se principalmente de um problema de gestão pública. Há uma década já sabíamos que era preciso diminuir a dependência desse sistema e contar só com as chuvas em um cenário de mudanças climáticas foi um tanto quanto irresponsável. 


Assim, temos a receita do desastre: a cultura da abundância e a má gestão pública resultaram em desperdício. O desperdício, em colapso. E o colapso, quando somado às mudanças do clima, apresenta novos riscos aos negócios e à população. 


As primeiras empresas a sentirem o golpe são as do setor de alimentos e bebidas. Mas este não será o único. Dezenas de outras empresas também dependem de água em abundância nas suas operações, por exemplo, as do setor industrial ou dos setores de energia e agropecuária, absolutamente estratégicos para o Brasil e com potencial para provocar impactos em cadeia desastrosos.


Um exemplo de como a falta de água vem afetando a produção da indústria é o caso da Rhodia, uma das maiores indústrias químicas do Brasil. Em fevereiro deste ano a empresa foi obrigada a interromper as operações de uma de suas linhas de produção. Mesmo com a devolução de mais de 90% da água captada para o rio, o baixo volume das águas obrigou a sua interrupção parcial no complexo de Paulínia. 


Atentas a este cenário, empresas como a Coca-Cola, Unilever, SAB Miller, Dole, TATA, C&A e a Natura começaram a fazer sua avaliação de pegada hídrica. Para esse cálculo, a principal metodologia utilizada é a da Water Footprint Network – a Water Footprint Assessment (WFA)


A SAB Miller, empresa Anglo-Sul Africana de bebidas e uma das maiores cervejarias do mundo, pode ser considerada pioneira nesse tema. Em parceria com o World Wildlife Foundation, eles realizaram uma avaliação detalhada sobre o uso da água na sua cadeia de valor. A partir daí, traçaram uma série de métricas como a entrada e saída de água no processo, geração de efluentes líquidos, custo de compra de água, custo para tratamento dos efluentes e custo de energia para bombeamento da água na unidade industrial. Atualmente, suas cervejas exigem em média apenas 3,5 litros de água para produzir cada litro de cerveja. Em 2008 esse valor era 4,8 litros.


Além da WFA, outras ferramentas têm surgido nos últimos anos, visando preencher as lacunas de informações e avançar na análise de riscos e oportunidades corporativos em escala global. Algumas delas são:  Ceres Aqua GaugeUnited Nations’ CEO Water MandateWorld Resources Institute’s Aqueduct e World Business Council for Sustainable Development’s Global Water Tool.6.


Os próximos passos para a evolução desta agenda serão estabelecer um único padrão global de mensuração e dar escala às iniciativas corporativas de reporte, seguindo o mesmo caminho que a gestão corporativa de Gases de Efeito Estufa vem trilhando ao longo dos últimos 10 anos. 


Roberto Strumpf, sócio-diretor da Pangea Capital


A Pangea Capital acredita que o mundo é movido a água, e que em breve esse recurso será mais valioso e estratégico do que o petróleo.


[1] O Sistema Cantareira, composto por seis barragens interligadas por um complicado sistema de túneis, canais e estação de bombeamento, é responsável por abastecer 14 milhões de pessoas, incluindo 45% da população da Região Metropolitana de São Paulo (parcela correspondente a cerca de 9 milhões de habitantes)[2]Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/negocios,falta-de-agua-preocupa-industrias-no-interior-paulista,177588e

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