QUANTO VALE ESTE RIO?

Nº33



25 DE NOVEMBRO, 2015


“O menino tinha certeza de que havia nascido no dia em que viu o rio. Na sua memória, não havia nada antes daquele dia. O menino amou o rio pois acreditou que o rio também havia nascido no dia em que ele o viu”


A frase acima é trecho do livro “O menino do Rio Doce”, escrito por Ziraldo, em 1996. O livro conta a história de dois personagens, um menino e um rio. O menino nasce junto com o rio de sua aldeia, nele habita e dele todos retiram o próprio sustento.


Esse mesmo rio, o Rio Doce, sustento do menino, é o rio dos indígenas, das comunidades ribeirinhas, das 40 cidades que ele cruza nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo e de todo um ecossistema que ele ajuda a regular.


Não apenas sustento, mas vida. Um rio provê diversos serviços ecossistêmicos[1] para a população. Serviços de provisão, como água potável; serviços de regulação, ajudando a equilibrar o ciclo hidrológico; serviço de suporte, como habitat para diversas espécies aquáticas; e serviços culturais, como lazer e experiência espiritual de pertencer a algum lugar.


Durante essas últimas semanas, assistimos ao maior desastre ambiental do Brasil. Duas barragens da mineradora Samarco, cujos donos são a Vale a anglo-australiana BHP, se romperam e um tsunami de lama varreu uma comunidade inteira, matando dezenas de pessoas, um rio e todo o ecossistema ao seu redor. A lama despejou 62 milhões de m³ de rejeitos de minério de ferro no meio ambiente e já percorreu mais de 400 km, chegando até o litoral do Espírito Santo.


Desde então, muito se tem falado sobre qual o valor monetário que a companhia deve pagar para reparar o dano causado. Mas como contabilizar todo o prejuízo? Com certeza não há um valor capaz de apagar da memória das pessoas as imagens do acidente, a perda de seus familiares e amigos e toda a vida que construíram naquele lugar.


Mas em relação ao Rio Doce, é possível? O “Nilo brasileiro” foi transformado em uma correnteza espessa de terra e areia. Ele já não pode ter mais sua água captada, deixando mais de 500 mil pessoas com as torneiras secas. O aumento do volume de sedimentos causará o seu assoreamento, de suas nascentes e de outros riachos interligados, tornando-os os mais rasos. Apesar das obras de remediação, não se acredita que o problema será resolvido, pois os rejeitos, com altos índices de ferro, manganês e alumínio, estão cimentando tudo o que veem pela frente.

Vista aérea da do local de rompimento de barragem, em Bento Rodrigues, Minas Gerais


Além disso, a lama impede a entrada de luz e a oxigenação da água, o que altera o seu pH, e sufoca toda a flora e fauna aquática do local. A sua força também arrastou matas ciliares, que possuem a nobre função de justamente proteger os cursos d´água. Espécies endêmicas, ou seja, que só existiam ali, provavelmente se extinguiram junto com o acidente. A região costeira do Espírito Santo é local de desova de tartarugas e possui alta diversidade marinha.


Há ainda os prejuízos econômicos, como atividades de pesca, criações e plantações que foram perdidas e que dificilmente possam ocorrer novamente na região, pelo menos em um período médio de tempo.


Hoje há algumas ferramentas de valoração de serviços ambientais, que além de ainda serem pouco conhecidas, dificilmente conseguem englobar todos esses aspectos e traduzir todo o significado que o rio tinha para quem vivia dele. 


Além do mais, será que a Samarco e mesmo os órgãos públicos pensaram algum dia na extensão e na magnitude de um acidente desse porte e traduziram isso em seus planos emergenciais? Para efeitos de comparação, o acordo feito entre EUA e a petroleira BP, responsável pelo vazamento de óleo no Golfo do México foi de US$ 20 bilhões (R$ 76,7 bilhões).  De acordo com Alessandra Magrini, professora de planejamento energético e ambiental da Coppe-UFRJ e especialista no cálculo de prejuízos em desastres ambientais, os danos causados pelo desastre de Mariana "serão da ordem de bilhões" e são necessários estudos do impacto do desastre que levem em conta não só a extensão do dano no espaço, mas também o prejuízo ao longo do tempo.


A Pangea Capital acredita que é fundamental a gestão sustentável dos recursos naturais para a resilência de empresas e cidades. Para isso, a valoração de serviços ecossistêmicos e o mapeamento de riscos são fundamentais.


Texto escrito por Lígia Carvalho, colaboradora da Pangea Capital. 


[1] Trata-se dos benefícios que as pessoas obtêm da natureza direta ou indiretamente, através dos ecossistemas, a fim de sustentar a vida no planeta [2] Fonte: Exame. Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/estudo-alertava-para-risco-de-barragem-em-mariana-romper

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