PANGEA CAPITAL

contato@pangeacapital.com.br

+ 55 11 2307.0018

Rua Cônego Eugênio Leite, 933, Cj. 131

Pinheiros | São Paulo | SP | CEP 05414-012

  • Pangea

LINEAR OU CIRCULAR?

Nº16



28 DE JULHO, 2014


A Terra é um sistema fechado e cíclico. Com a exceção da luz solar e de um ou outro meteorito perdido, nada de novo é adicionado a esse sistema.


Portanto, temos a mesma constituição atômica há bilhões de anos e esses átomos vêm se organizando e se desorganizando para se materializarem em tudo o que conhecemos do Planeta, de uma alga unicelular ao homem, das pirâmides do Egito a um chip de computador.  


Esse sistema fechado está longe de ser monótono, pois vive em constante transformação seguindo as leis da física, química e biologia, em um equilíbrio dinâmico e perfeito. O homem faz parte dessa confusão organizada e tem tido uma influência cada vez mais importante no papel desses átomos, principalmente a partir da Revolução Industrial.


Nos últimos dois séculos, passamos a ter o papel principal como motor das transformações planetárias, que vem crescendo contínua e exponencialmente. A transição de pequenas vilarejos com alguns milhares de pessoas para uma comunidade planetária de 7 bilhões foi muito rápida. Rápida demais para levarmos em consideração os limites físicos do Planeta.


E foi dessa pressa desenvolvimentista que surgiu um modelo inicialmente promissor, um sistema linear lapidado por Henry Ford e baseado em três passos básicos que ainda hoje norteiam a indústria mundial: extração, uso e descarte. Surgiu assim a sociedade “do jogar fora”.


A economia linear funcionou bem, até que em meados da década de 80 rompemos os limites de autorregeneração do Planeta[1] e, como consequência, vivemos hoje em uma situação de grande acúmulo de resíduos e progressiva escassez de recursos, com diversos impactos ambientais, sociais e econômicos negativos relacionados.


A indústria de telefones celulares é um ótimo exemplo de setor que começa a enxergar grandes riscos operacionais e reputacionais na continuidade desse modelo produtivo. Na ponta extrativista de sua cadeia, o setor se aproxima rapidamente da exaustão de metais raros imprescindíveis para a produção dos smartphones atuais[2], algumas reservas não devem durar mais do que 10 anos. Do outro lado, a quantidade de lixo eletrônico já chegou a alarmantes 50 milhões de toneladas anualmente, com uma grande contribuição dos celulares que duram cada vez menos nas mãos dos usuários[3].


Diante da percepção de que a geração contínua de riqueza e bem estar requer um novo modelo industrial, capaz de desacoplar o crescimento econômico da geração de resíduos e depleção de recursos, economistas e acadêmicos buscam agora caminhos para um sistema econômico que mimetize os sistemas naturais e que funcione de forma cíclica, um sistema que passou a ser chamado de economia circular.


De acordo com o relatório intitulado “Towards the Circular Economy: Economic and business rationale for an accelerated transition”, lançado em janeiro de 2012 pela Fundação Ellen MacArthur, em parceria com a consultoria McKinsey e o Fórum Econômico Mundial[4], as principais propostas da economia circular são:


1. Eliminar a noção de resíduo

  • Produtos são projetados e otimizados para um ciclo contínuo de desmontagem e reutilização.


2. Introduzir a diferenciação entre componentes consumíveis e componentes duráveis de um produto (ver figura 1 abaixo)


  • Consumíveis (ciclo biológico):ingredientes biológicos não tóxicos que podem ser retornados à biosfera, direta ou indiretamente.

  • Duráveis (ciclo técnico):

        Projetados desde o início para o reúso ou atualização.

        São alugados, arrendados ou compartilhados sempre que possível.


3. Utilizar apenas energia renovável para alimentar os ciclos

  • Reduzir a dependência de recursos e aumentar a resiliência do sistema.

Figura 1. Economia circular e a diferenciação entre os componentes duráveis (clico técnico) e componentes consumíveis (ciclo biológico).


Segundo o relatório, os benefícios econômicos da transição para esse novo modelo de negócios é estimado em mais de um trilhão de dólares. Ao eliminar o lixo de cadeias industriais através do máximo reúso possível de materiais, acredita-se que haverá a redução no custo de produção e na dependência de recursos. Além disso, nações vão se beneficiar de uma redução líquida substancial de materiais, mitigação na volatilidade e riscos de abastecimento, fomento a inovação e criação de empregos, melhora na produção e qualidade do solo e, consequentemente, aumento na resiliência da economia no longo prazo.


Um bom exemplo de aplicação prática dos preceitos da economia circular vem de um projeto piloto da Google chamado de Projeto Ara[5], que visa desenvolver um celular modular, com componentes intercambiáveis (Figura 2). Ao invés de uma placa de vidro e metal que você não tem capacidade de atualizar, essa é uma tentativa de lançar um telefone onde todos os principais componentes são trocáveis, através de módulos encaixáveis conectados a peça principal por eletroímãs.


Figura 2. O protótipo Ara. Foto: Norman Chan/Tested.com


Portanto, sob o ponto de vista empresarial, desenvolver um projeto de economia circular gera oportunidades ambientais (ex. redução de resíduos e seu tratamento), reputacionais (ex. melhorar a imagem da organização perante seus stakeholders) e econômicas (ex. redução de custos de extração de matéria-prima, tratamento e disposição de resíduos), beneficiando também todas as outras esferas da sociedade.


Roberto Strumpf, sócio-diretor da Pangea Capital


A Pangea Capital acredita que a economia circular pode ajudar a dissociar o crescimento econômico da depleção de recursos naturais, provocando uma mudança radical e positiva na forma como a produção industrial está hoje organizada.


[1] De acordo com um estudo baseado na metodologia de Pegada Ecológica (Global Footprint Network, 2011), que analisa área necessária da superfície do Planeta para suprir todas as necessidades do homem, de alimentação a moradia. Para mais detalhes: http://www.pangeacapital.com.br/#/porque[2] http://www.theguardian.com/sustainable-business/ng-interactive/how-ethical-is-your-smartphone[3] http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/dec/14/observer-editorial-electronic-toxic-waste[4] http://www.ellenmacarthurfoundation.org/business/reports/ce2012[5] http://www.projectara.com/

1 visualização