FAZENDAS DE SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS?

Nº44



13 DE JANEIRO, 2017


Em meio a maior crise da história do país, o setor agrícola resiste. Os dados são impressionantes: crescimento de 4% no último ano, chegando a 22% do PIB brasileiro em 2016[1], maior exportador mundial de carne bovina, segundo maior produtor de soja, dentre outros números superlativos.


No entanto, estas métricas contam apenas parte da história e do potencial de geração de valor em uma propriedade rural no Brasil. O fato é que estamos com o olhar viciado por uma falha econômica de grandes proporções, a desconsideração das externalidades ambientais. Falha grave para a maior potência global em capital natural[2]


Esta cegueira parcial faz com que as análises e métricas econômicas convencionais desconsiderem o valor gerado ou perdido em uma fração enorme do território brasileiro, ocupado por áreas destinadas à preservação ou de uso restrito dentro de propriedades rurais, como Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente. São aproximadamente 90 milhões de hectares ou 11% do território nacional (EMBRAPA, 2016).


Esta desconsideração condena áreas destinadas à conservação ambiental ao status de “improdutivas” e cria todos os tipos de incentivos para a sua degradação. Os prejuízos podem não ser óbvios, mas são gigantescos e vão muito além do que a extinção de espécies animais e vegetais. Como exemplo, um estudo apresentado em 2015 pelo GIZ, CEBDS e True Cost estimou que o custo do capital natural utilizado e não valorado por empresas brasileiras de diferentes setores foi de R$1,65 bilhões em 2014[3].


Acontece que estas áreas ditas improdutivas são, na verdade, responsáveis por uma gama enorme de serviços imprescindíveis ao bem estar do homem e ao funcionamento da economia, são os serviços ecossistêmicos (saiba mais aqui).


Por falta de políticas públicas e mecanismos de mercado adequados e abrangentes, estes serviços não são mensurados, valorados e embutidos no custo de mercadorias ou serviços, gerando prejuízos pulverizados por toda a sociedade e poder público. São, por exemplo, custos elevados no tratamento de água e manutenção dos solos, maior riscos de enchentes e secas, redução na produtividade de cultivos que dependem de polinização, aumento de gastos na área de saúde pública, entre outros.


Além do valor gerado pela manutenção dos ecossistemas, o manejo sustentável das áreas de Reserva Legal tem potencial de se tornar o motor de uma revolução industrial única, baseada no uso inteligente do capital natural. Esta é, sem dúvida, a melhor saída para tirarmos a indústria brasileira da estagnação e torna-la competitiva neste século - já que o bonde da chamada 4ª Revolução Industrial, baseada na tecnologia digital, nós já perdemos.


Por fim, vale destacar que, sem uma profunda reflexão sobre a gestão territorial e uso do solo, o Brasil não cumprirá seus compromissos submetidos ao Acordo de Paris e o mundo não conseguirá evitar um aquecimento acima dos 2ºC.


Felizmente, politicas públicas, empresariais e o comportamento de consumidores e

investidores têm pressionado pela mudança neste cenário, com resultados expressivos na última década. Dentre os drivers desta nova agropecuária, destacam-se:


  • Novo Código Florestal Brasileiro;

  • Acordo de Paris;

  • Política Nacional sobre Mudanças Climáticas e seu Plano para Agricultura de Baixo Carbono;

  • Políticas de compras de grandes empresas da cadeia de alimentos e bebidas, impulsionadas por acordos setoriais como a Moratória da Carne e Moratória da Soja;

  • Critérios restritivos para a concessão de crédito rural por parte dos bancos públicos e privados;

  • Pressão dos consumidores pela rastreabilidade e sustentabilidade dos alimentos.


A somatória de todos esses fatores, juntamente com uma constante evolução tecnológica e de conhecimento sobre as praticas agrícolas nos trópicos, tem sido o motor de uma nova revolução no campo, evidenciada pelas taxas crescentes de produtividade em comparação as taxas históricas de desmatamento, em especial no Bioma Amazônico.


Há, portanto, um potencial enorme de aumento de produção de alimentos atrelado a uma agropecuária regenerativa. Isso quer dizer que as fazendas brasileiras podem sim ser o celeiro do mundo e, ao mesmo tempo, sequestrar carbono, purificar a água, preservar nossa biodiversidade e alimentar uma revolução industrial baseada no capital natural. Para isso, precisamos de políticas e mecanismos que viabilizem o pagamento pelos serviços ecossistêmicos, dando escala aos casos de sucesso já existentes.


A Pangea Capital trabalha junto a parceiros e clientes para mensurar, valorar, gerir e reportar o capital natural visando agregar valor à agropecuária sustentável e de baixo carbono. Esta mudança de paradigma em escala será chave para possibilitar segurança alimentar, equilíbrio ambiental e crescimento econômico para a nossa e as futuras gerações.


Roberto Strumpf, sócio-diretor da Pangea Capital



[1] http://www.cepea.esalq.usp.br/upload/kceditor/files/Relatorio%20PIBAGRO%20Brasil_

SETEMBRO.pdf

[2] Em termos gerais, ‘capital’ é definido como o estoque de materiais ou informações que existem em um sistema, a qualquer momento. Capital Natural se refere ao estoque e fluxo dos serviços ecossistêmicos da Terra. Assim como um investidor utiliza capital financeiro para gerar lucro, um estoque de florestas ou de peixes irá prover um fluxo futuro de madeira ou alimento.

[3] http://cebds.org/wp-content/uploads/2015/07/GIZ-Natural-Capital-Risk-Exposure.pdf

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