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CLIMA, FLORESTA & ALIMENTO, QUAL O EQUILÍBRIO DESSA EQUAÇÃO?

Nº53



04 DE ABRIL, 2019


A abordagem de paisagens produtivas sustentáveis como estratégia para assegurar a segurança alimentar e a produtividade 


O setor agropecuário está diante de crescente pressão de diferentes stakeholders para endereçar desafios de natureza complexa. Isso requer equacionar variáveis como alimentar uma população crescente; desenvolver dietas mais saudáveis; reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) e a pressão sobre o capital natural; aumentar a produtividade e a conservação dos solos, reduzindo assim a necessidade de abertura de novas áreas.

Estes desafios ganham ainda maior dimensão quando olhamos as projeções para as próximas décadas. O infográfico abaixo, elaborado pelo World Resources Institute, discute sobre as três principais lacunas - produção de alimentos, emissões de GEE e uso da terra, a serem enfrentadas até 2050 a fim de assegurar um futuro equilibrado e sustentável.

Figura 1. As três lacunas para um futuro com segurança alimentar e ambiental

Fonte: World Resorces Institute


Paisagens produtivas sustentáveis apresentam-se como resposta contundente para equacionar essas variáveis. Esse modelo produtivo se apoia em preceitos de produção integrada, combinando espécies arbóreas, se possível nativas de alto valor (castanha, açaí etc), com cultivos agrícolas, sustentados por sistemas agroflorestais e agricultura sustentável.

Apesar dos múltiplos benefícios socioambientais, esses sistemas ainda penam para serem economicamente atrativos aos produtores, e assim ganhar escala. Mecanismos de pagamentos por serviços ambientais (PSA) representam a peça que falta para viabilizar esta estratégia, pois geram recursos ou incentivos financeiros que cobrem o custo de oportunidade do produtor, fomentando a conservação, desenvolvimento e valorização de ativos ambientais em conjunto com a conscientização da comunidade e sua consequente melhoria de qualidade de vida.

Mesmo no cenário de pouca regulação e incertezas quanto à implementação do Acordo de Paris, o mercado de PSA mais evoluído do mundo é o de carbono e há hoje diversas oportunidades. Segundo o relatório divulgado pelo Forest Trends¹ em 2018, os projetos de carbono relacionados a florestas e uso do solo são responsáveis por gerar 22% de todo o volume de carbono comercializado no mundo, ficando atrás apenas de projetos de eficiência energética.

Dentre eles, os projetos de reflorestamento e sistemas agroflorestais, os quais se enquadram nos modelos produtivos sustentáveis, possuem no mercado voluntário de carbono valores significativos, com transações médias de U$ 7.50/ tCO2e e podendo chegar a valores de venda de até U$ 70/ tCO2e, dependendo da localização e características do projeto. Estes projetos possuem uma maior valorização em relação a outros mais disseminados, como é o caso de projetos de redução de emissões de desmatamento e degradação florestal (REDD), onde são pagos em média U$ 4.40/tCO2e.

O projeto Scolel’Te, pioneiro na atividade de geração de serviços de carbono, é desenvolvido no México e considerado um exemplo a ser seguido. Fundamenta-se nas diretrizes de uso sustentável da terra através de sistemas agroflorestais e restauração florestal. Com 22 anos de duração, o projeto apoia 1.287 produtores e 9 grupos comunitários e já comercializou cerca de 536 mil toneladas de carbono com valores de venda de U$12 a U$15/tCO2e.

O entendimento do elemento carbono como mecanismo para viabilizar economicamente estes modelos produtivos alternativos apresenta-se como uma forma sagaz de uso do capital natural. Nesta abordagem, torna-se possível mitigar emissões de gases de efeito estufa por meio de três frentes complementares - implementação de práticas produtivas de baixo carbono, restauro florestal para atividades extrativistas e contenção do desmatamento – ao mesmo tempo em que se produz alimento e gera renda no campo.

No entanto, vemos muitos sinais na contramão dessa tendência. A Amazônia sofre hoje grandes ameaças com o aumento do desmatamento e um governo pouco sensível ao tema. De acordo com dados divulgados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o desmatamento na Amazônia Legal teve um aumento de 54% em janeiro de 2019 quando comparado ao mesmo período do ano passado, corroborando as projeções feitas por pesquisadores a respeito dos efeitos das políticas apresentadas pelo novo governo para a agricultura.

Muitas dessas políticas se baseiam em uma ideia equivocada de antagonismo entre a produção agrícola e a conservação das florestas nativas, quando tais coisas não são excludentes. Pelo contrário, os serviços ecossistêmicos prestados pelas florestas sustentam a atividade agropecuária, assegurando condições críticas para a produção, tais como equilíbrio dos regimes de chuva, solos férteis, polinização para citar apenas alguns exemplos. Além de contraproducente, esse entendimento revela uma falta de visão de negócios, uma vez que é crescente a demanda vinda de compradores e investidores nacionais e internacionais por produtos livres de desmatamento.

Temos muito aprender com os povos da floresta a partir de sua experiência milenar de manejo sustentável da terra e recursos naturais. Diante disso, a trajetória de lideranças como Chico Mendes não deveriam causar incômodo, mas sim servir de inspiração para um modelo de produção baseado na interdependência entre a economia florestal, a preservação ambiental e a justiça social.

¹https://www.forest-trends.org/publications/voluntary-carbon-markets/

Renata Potenza, consultora associada e Roberto Strumpf, Diretor da Pangea Capital.

A Pangea Capital entende que grandes decisões têm sido feitas com base em métricas erradas, ou no mínimo incompletas, e que para corrigir esse erro precisamos colocar o capital natural no mesmo nível de prioridade do financeiro.

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