• Pangea Capital

CARBON FARMING

Nº 57


16 DE DEZEMBRO, 2019

Que tecnologia seria capaz de capturar carbono da atmosfera, fixá-lo em produtos de interesse econômico, gerando como subproduto água e oxigênio?


Por Juliana Lopes e Roberto Strumpf*


Se tem um tema que conecta a todos nós é a comida ou a falta dela. A segurança alimentar, ou seja a capacidade de produzir ou ter acesso a alimentos em quantidade e qualidade suficientes, tem ditado o rumo da humanidade desde os seus primórdios e continua até hoje no centro de grandes disputas comerciais e políticas. Em tempos de crise climática nos vemos diante daquele que consiste no maior desafio e também na maior oportunidade do século XXI: alimentar uma população que, em 2050, vai chegar a 9.2 bilhões de pessoas e ao mesmo tempo estabilizar o clima do Planeta[1].


Desde a Revolução Industrial, temos tirado carbono das profundezas da terra para lançá-lo na atmosfera em quantidade sem precedentes devido ao aumento vertiginoso do consumo de combustíveis fósseis, cuja queima tem como resultado os gases de efeito estufa (GEE). Assim, devido à ação humana, registramos aumentos recordes na temperatura média global, desestabilizando sistemas que sustentam a vida no Planeta há bilhões de anos, entre os quais a regulação climática. Se as emissões continuarem subindo, vamos chegar a um patamar de 2ºC a 4ºC adicionais na temperatura média global até 2050. Para entender melhor o impacto disso, basta lembrar como nosso corpo reage a um estado febril. Com o aumento de um grau, muitas funções do nosso organismo já ficam comprometidas e uma febre de dois graus pode levar-nos à morte. Com o Planeta não é diferente.


Para evitar essa mudança climática perigosa e irreversível, os cientistas recomendam esforços para reduzir as emissões de carbono em 50% até 2030, alcançando emissões neutras ainda neste século. Em outras palavras, além de reduzir emissões de carbono precisaremos desenvolver formas de removê-lo da atmosfera.


Agora, imagine se existisse uma tecnologia capaz de capturar carbono da atmosfera, fixá-lo em produtos de interesse econômico, gerando como subproduto água e oxigênio. Pois essa tecnologia existe e está bem debaixo do nosso nariz... literalmente. De tão óbvia, ela vem sendo ignorada. Se estamos respirando agora e nos alimentando é porque existe uma sofisticada tecnologia de ciclagem de carbono na natureza, que por meio da ação de microorganismos e da fotossíntese das plantas, devolve nutrientes para o solo, fixa carbono e ainda produz oxigênio e água.


Tudo o que precisamos fazer para dar escala a essa tecnologia é trabalhar a favor dos sistemas que sustentam a vida no Planeta há bilhões de anos. Esse é o princípio norteador da agricultura regenerativa caracterizada por práticas que contribuem para:


1. Reconstrução, fertilidade e saúde dos solos

2. Infiltração e retenção de água.

3. Melhorar e conservar a biodiversidade.

4. Saúde dos ecossistemas, sua capacidade de auto-renovação e resiliência

5. Sequestro ou captura de carbono da atmosfera


E que práticas são essas que caracterizam a agricultura regenerativa? Segundo Torri Estrada, diretor executivo Carbon Cycle Institute (CCI), existem em torno de 36 práticas[2] que contribuem para o chamado cultivo de carbono, orginalmente conhecido como carbon farming, que consiste justamente no sequestro de carbono, item 5 da lista acima, mas que contribui também para os outros aspectos citados. Entre elas estão técnicas como o plantio direto e sistemas de produção agroflorestais, que seguem a lógica da floresta combinando espécies de variados extratos vegetais que se beneficiam mutuamente a fim de aumentar a fertilidade e saúde dos solos. Isso é possível graças à produção de matéria orgânica em grandes quantidades para manter o solo protegido, reduzindo a necessidade de fertilizantes e defensivos químicos a base de petróleo.


O recente Relatório Especial do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre uso do solo, lançando em agosto de 2019, conclui que atividades agroflorestais, práticas agropecuárias de baixo-carbono ou regenerativas podem contribuir com a redução de até 10 GtCO2e por ano até 2050, o que equivale a 20% das emissões antropogênicas[3].


Segundo o Projeto Drawdown, que se apresenta como “o plano mais abrangente já proposto para reverter o aquecimento global”, o setor de alimentos pode contribuir com 30.6% das reduções de emissões de carbono necessárias para limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC. A Tabela 1 mostra as faixas de remoção de carbono por hectare ao ano para diferentes práticas regenerativas. Os tipos de seqüestro incluem carbono orgânico do solo (SOC), biomassa acima do solo (AGB) ou ambos. Essas estimativas são apresentadas em emissões de carbono equivalentes, considerando dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O)[4].


TABELA 1: TAXAS DE REMOÇÃO (Em toneladas métricas de carbono equivalente por hectare por ano)

© 2017 Project Drawdown


No livro Drawdown, de autoria de Paul Hawken, são apresentadas 100 Iniciativas para Resolver a Crise Climática, entre elas está a experiência brasileira da Fazenda da Toca de agrossilvicultura multiestratficada. Com suas muitas camadas de vegetação, um hectare de agrossilvicultura multiestratificada pode alcançar taxas de sequestro de carbono comparáveis às do reflorestamento e restauração florestal – 6,9 toneladas por hectare por ano, em média – com o benefício extra de produzir alimentos. A experiência da Fazenda da Toca, também foi retratada como um estudo de caso do Projeto Verena, do WRI. Mais recentemente a Fazenda da Toca se lançou em uma nova frente com a start-up Rizoma, voltada a recuperação de áreas de pasto degradadas por meio da implementação de sistemas agroflorestais.



Foto: Modelo de agrossilvicultura multiestratificada na Fazenda da Toca, em Itirapina (SP), Brasil. Divulgação Fazenda da Toca.


Outro caso emblemático vem da Costa Rica, que encontrou nas práticas regenerativas uma forma de diversificar sua economia, combinando crescimento econômico e ecológico. O país é modelo no mundo por ter revertido o processo de perda de cobertura florestal com a implantação de um programa nacional de pagamentos por serviços ambientais. Com isso, ampliou sua área de cobertura florestal original de 26% em 1990 para 52% em 2013. Essa bem sucedida recuperação florestal resulta da aposta no turismo de natureza e na implementação de práticas agroecológicas e sistemas agroflorestais de produção, com destaque para o café, considerado um dos melhores do mundo. Assim, a economia a Costa Rica registrou um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 69,5% entre 2013 e 2017, a maior expansão de toda a América Latina, de acordo com a Comissão Econômica Para América Latina (Cepal). A Costa Rica também detém o primeiro lugar no Happy Planet Index, que mede o bem-estar sustentável e “o quão bem as nações estão indo para alcançar vidas longas, felizes e sustentáveis”, nas palavras do New Economics Foundation responsável pelo índice.


Estamos em meio a uma enorme mudança cultural em resposta a desafios complexos como a crise climática. Além de oferecer uma das soluções mais custo-efetivas para reverter a mudança climática, as práticas de agricultura e pecuária regenerativas ajudam a restaurar solos; gerar renda no campo, diminuindo assim a pressão sobre as cidades e contribuindo para a segurança alimentar, hídrica e energética, resultando em maior resiliência tanto do ponto de vista ambiental, quanto social e econômico.


Juliana Lopes, consultora associada da Pangea.

Roberto Strumpf, sócio diretor da Pangea.


A Pangea Capital vem monitorando as mudanças nos balanços de carbono de fazendas pelo país a partir da implementação de práticas de agropecuária regenerativa. Nossa aposta é que esse carbono, uma vez tendo um valor de mercado, poderá se tornar o catalizador para dar escala as essas práticas, gerando renda no campo e diversos co-benefícios.


Quer saber mais sobre práticas de agricultura e pecuária regenerativas? Escute o podcast da Pulsar sobre o tema com Roberto Strumpf, diretor executivo da Pangea Capital.

[1] FAO, 2019. Disponível em: http://www.fao.org/fileadmin/templates/solaw/files/thematic_reports/TR_04b_web.pdf


[2] https://www.thedailybeast.com/can-carbon-farming-reverse-climate-change


[3] https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/08/4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf


[4] https://www.drawdown.org/solutions/food


[5] A agricultura de conservação foi desenvolvida no Brasil e na Argentina na década de 1970 e segue três princípios fundamentais: a) minimizar a perturbação do solo: ausência de arado, os agricultores semeiam diretamente no solo; b) manter a cobertura do solo: os agricultores deixam resíduos da colheita após a colheita ou cultivam plantas de cobertura; c) gerenciar a rotação de culturas: os agricultores mudam o que é cultivado e onde. Disponível em: https://www.drawdown.org/solutions/food/conservation-agriculture

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