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BREXIT PARA ONDE?

Nº40



19 DE JULHO, 2016


Somos uma espécie social por essência, nossa capacidade de colaboração para a resolução de problemas complexos foi o que nos tirou da obscuridade das cavernas e nos colocou em todos os cantos do mundo.


Mas assim como todas as outras espécies sociais, dividíamos o mundo entre nós e eles, onde o nós seriam nossa família, bando ou comunidade próxima e o eles seriam todo o resto. Se importar com todo o resto nunca fez muito sentido evolutivo e um mundo com milhares de aldeias isoladas.


Porem, desde o surgimento do primeiro Homo Sapiens a 200 mil anos atrás muita coisa mudou. A primeira grande revolução foi a Cognitiva, ocorrida a 70 mil anos, seu grande marco foi o surgimento da linguagem ficcional, a qual abriu caminho para a proliferação de características que definem o nosso pensar de hoje, como a imaginação, os mitos, a arte e a cultura. Quase 60 mil anos depois, passamos pela Revolução Agrícola, quando nos apegamos a terra e aprendemos a colher e criar seus frutos, nos assentamos e passamos a produzir quantidades suficientes para o surgimento de aldeias cada vez maiores e mais numerosas, encurtando nosso isolamento.


Milhares de anos depois, entre o 5º e o 1o milênio antes de Cristo, as grandes ordens necessárias para organizar e gerenciar um mundo já complexo foram estabelecidas: as ordens monetária, política e religiosa. Estas se tornaram muito maiores e poderosas do que poderíamos imaginar e, turbinadas pelas Revoluções Científica e Industrial ocorridas nos últimos 500 anos, acabaram de vez com o isolamento entre os povos, moldando nossa civilização como a conhecemos hoje.[i]


Neste período, o chamado mundo ocidental foi extremamente eficiente em disseminar estas ordens e, pouco a pouco, o dinheiro, os impérios e as grandes religiões monoteístas ganharam o mundo, carregando consigo os ideais de autodeterminação e direitos humanos. Como conseqüência, vivemos hoje uma realidade onde a morte é menos banalizada e onde o direito de igualdade entre sexos, raças e religiões é reconhecido em quase todos os países. Quase!


Seria ingênuo pensar que estas três ordens materializam a vitória do bem contra o mal, da civilização contra a barbárie. O processo de disseminação destas carrega um currículo manchado por banhos de sangue, destruição de culturas, intolerância e desigualdade social.


Como consequência, hoje lidamos com uma herança rancorosa gerada pelo processo agressivo de instauração destas ordens. Vivemos em um mundo carregado pelo ódio entre classes sociais, diferentes religiões e diferentes nações. Estes sentimentos alimentam movimentos extremistas, assim como crises politicas e econômicas que balançam as estruturas de nossa aldeia global.


No campo politico, temos um Donald Trump com 40% de intensões de voto na nação tida como o suprassumo da democracia e igualdade de direitos. Do outro lado do Atlântico, as intensas migrações de refugiados alimentam ideais de extrema-direita em países como Alemanha e Áustria e, na Inglaterra, o Brexit carrega forte simbologia, tornando-se ícone de um novo momento global. Após décadas de continuo avanço no pós-Segunda Guerra, parece que estamos em uma recessão democrática histórica.


No entanto, a ideia de que podemos voltar à lógica separatista do nós contra eles é uma grande ilusão. Nossa capacidade adaptativa, junto as revoluções ocorridas e ordens instauradas nos tornaram o benchmark em termos de sucesso evolutivo. Em menos de 3 séculos fomos de 1 para 7 bilhões de habitantes de uma única e grande aldeia planetária.


Atualmente, transcendemos os limites do Planeta e a disputa por recursos naturais torna-se progressivamente mais um foco de tensão. A mistura dos sentimentos antidemocráticos com os conflitos ambientais é explosiva, e tende a colocar em risco a qualidade de vida da nossa espécie ou até mesmo a sua sobrevivência.


Neste sentido, a compreensão dos limites planetários[ii] representa o tiro de misericórdia que restava à legitimidade dos Estados-nação independentes. Nenhum estado soberano será capaz de enfrentar sozinho o aquecimento global ou a escassez de água, para citar alguns dos desafios ambientais globais. Hoje somos mais do que conectados, somos interdependentes.


Vivemos portanto um grande paradoxo, pois apesar deste cenário político de intolerância, existem duas novas ordens que podem ajudar a nos colocar em uma rota mais harmoniosa: a revolução da informação e da sustentabilidade. Estas não representam interesses excludentes e, portanto, não reconhecem a existência do eles, fortalecendo o reconhecimento de um mundo interdependente.


Estas ordens nos mostram a urgência (sustentabilidade) e a possibilidade (informação) de pensar e agir como um único bando, representando uma oportunidade valiosa de nos unirmos em torno de uma visão colaborativa. Como exemplo, é a quebra deste paradigma, da existência do “eles”, que está por detrás das negociações diplomáticas nas Conferências Climáticas que já se carregam a mais de 20 anos.


Correntes imensamente poderosas de capital, trabalho e informação giram e moldam o mundo, com uma crescente desconsideração pelas fronteiras e opiniões dos Estados, buscando criar uma democracia mais humanizada e sem “exits”. Cada vez mais indivíduos são chamados para ajudar na instauração desta quarta ordem. Eles terão de ponderar se responderão ao chamado universal ou se permanecerão fieis aos objetivos excludentes e individualistas que alimentam o ódio. Qual é a sua escolha?


Roberto Strumpf, sócio-diretor da Pangea Capital


A Pangea Capital trabalha para um mundo includente, acima de um piso social e abaixo de um teto ambiental, e acredita que este mundo representa oportunidades de geração de valor compartilhado.



[i] Para mais detalhes desta jornada, leia ótimo livro “Sapies – Uma breve história da humanidade” de Yuval Harari.

[ii] Para saber mais sobre os limites planetários acesse: http://www.stockholmresilience.org/research/planetary-boundaries/planetary-boundaries/about-the-research/the-nine-planetary-boundaries.html

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