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BAD COP, GOOD COP?

Nº34



07 DE DEZEMBRO, 2015


Ler as notícias das últimas semanas sobre a COP21 parece um flash-back de 2009: “Começa hoje um encontro histórico para o futuro do Planeta” ou “Chefes de estado do mundo se encontram para buscar um acordo pelo clima”.  As manchetes são muito similares as da mobilização pré-COP15 de Copenhagen, ocorrida há seis anos.


Copenhagen gerou uma expectativa enorme, bem maior do que as bases que existiam na época para permitir um acordo robusto e vinculante pela manutenção do clima planetário. A consequência disso foi um tombo tão grande quanto e, apesar de pequenos avanços, o evento ficou marcado como um fiasco. O legado foi uma “ressaca” de Copenhagen, fazendo com que o tema saísse das listas de prioridades de diversos governos e empresas ao redor do mundo.


O que então esperar de Paris?


Hoje temos uma conjuntura política e econômica muito mais climate-friendly do que em 2009, além de um pé no chão que apenas a experiência de grandes tombos pode ensinar. Basta avaliar as agendas de dois dos principais players nas discussões climáticas, Estados Unidos e China, para sermos mais otimistas.


O país de Obama passa por uma revolução energética com o advento do gás de xisto. As reservas americanas deste combustível são enormes, a tecnologia de extração evoluiu consideravelmente nos últimos anos e, apesar de ser um combustível fóssil, o gás apresenta uma pegada de carbono aproximadamente 50% inferior ao do carvão e 25% inferior ao do óleo combustível. Cerca de 60% das emissões americanas de GEE estão relacionadas à energia gerada por combustíveis fósseis, portanto, não é difícil entender a incorporação de uma agenda climática proativa após décadas de indiferença aos apelos globais.


Essa questão estratégica, potencializada por um líder carismático, engajado e que busca deixar um legado positivo ao final dos seus 8 anos de mandato, catapultaram o tema para outro nível de prioridade na maior potência do planeta, fato muito relevante para Paris.


Esse cenário nos ajuda a entender os movimentos do outro grande ator em cena, a China. Com essa temática na agenda e um pouco mais de apoio do senado americano, Obama foi bater na porta de Xi Jinping e teve êxito na assinatura de um acordo que está entre as melhores notícias climáticas de 2014 (box abaixo).


A mudança de comportamento da China também tem fortes motivações internas. O crescimento econômico brutal ocorrido na primeira década deste século foi alimentado por enormes quantidades de carvão, fazendo com que o país se tornasse o maior emissor em números absolutos em 2014 (Gráfico 1). A queima desse combustível, associada a leis ambientais frágeis, fizeram com que os grandes centros urbanos do país mergulhassem em nuvens de poeira tóxica, com consequências graves para a saúde da população e, por tabela, às contas púbicas.


Gráfico 1. Comparação entre as emissões de GEE dos países em 1990 e 2014.

Fonte: World Resources Institute, Bloomberg New Energy Finance.


A questão econômica também tem influência para o florescimento deste “ambientalismo chinês”, como não poderia deixar de ser. Em 2009, o país ainda crescia próximo a 10% ao ano, algo que vem mudando a partir de 2010, chegando a  7% em 2015. Esses números mostram que o resfriamento da produção industrial chinesa é uma tendência, o que resultará em um menor consumo de energia e, portanto, menos emissões. Assim, nada melhor do que estabelecer uma meta de redução que vá de encontro a uma forte tendência e, de quebra, ficar “bem na foto”. O Brasil, inclusive, já fez isso no passado.


E o Brasil nessa história? Uma análise detalhada terá de ficar para outro texto, mas podemos dizer que, apesar de ter perdido o papel de protagonista que historicamente exerceu nas COPs anteriores, o posicionamento brasileiro pode ser uma das poucas boas notícias do segundo mandato da nossa Presidente. Conforme mostra o Gráfico 2 abaixo, nossa “Contribuição Pretendida, Determinada em Nível Nacional” (sigla INDC em inglês), ou apenas meta voluntária de redução de emissões, é uma das mais ousadas, perdendo apenas para a Coreia do Sul.


Para completar esse cenário positivo, de Copenhagen para cá, uma importante ficha caiu para o Conselho Executivo da UNFCCC: um consenso simplesmente não é viável através de uma abordagem top-down , que impõem metas de redução de emissões aos diferentes países da conferência. Das NAMAs (Nationally Appropriate Mitigation Actions) às atuais INDCs, uma agenda positiva, inicialmente tímida, ganhou força e se multiplicou em uma diversidade de compromissos voluntários nestes últimos 5 anos, comprovando uma maior efetividade da construção de um compromisso global de baixo para cima, ou “bottom-up”.


Com isso, chegamos a Paris com aproximadamente 160 compromissos autodeclarados pelos diversos países participantes da Conferência, que deverão evitar a emissão de 37 Gigatoneladas de CO2e até 2030 (Gráfico 2). Seria o equivalente a zerarmos as emissões do Planeta por 1 ano e 3 meses.


Gráfico 2. Somatória do abatimento de emissões em comparação ao cenário business-as-usual entre 2012 e 2013. As percentagens à direita apresentam as metas dos diferentes países para o acordo pós-2020, ano base 2012.

Fonte: Bloomberg, New Energy Finance.


Não haverá mágica em Paris. O que ocorrerá é uma convergência entre a compreensão de governos e empresas de que limitar emissões de GEE não é um mau negócio; uma percepção de que estamos lidando com uma crise real, global e de proporções inéditas; e uma bela dose de jogo de cintura diplomático, advindo de técnicas de facilitação na mediação de impasses.


O acordo de Paris nos direcionará para uma rota de 3º C de aquecimento em 2100. Não é o bastante, teremos muito trabalho pela frente. Porém, por hora, o ótimo é inimigo do bom.


Roberto Strumpf, sócio-diretor da Pangea Capital


A Pangea Capital trabalha na elaboração e implementação de ferramentas que permitem a redução de impactos e vulnerabilidades e a identificação de oportunidades relacionadas a uma nova economia, moldada por um cenário de mudanças climáticas e escassez de recursos.

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