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É hora de regenerar


Por Susian Christian Martins*


Gestão florestal e o uso sustentável do solo são sinônimos de resiliência às mudanças climáticas para o setor agropecuário.


Essa foi a principal conclusão de estudo publicado pela WRI Brasil, GIZ e Coalizão Brasil Clima, Agricultura e Florestas com a contribuição de um time de especialistas brasileiros integrado por Eduardo Delgado Assad, Luiz Claudio Costa, Miguel Calmon, Rafael Feltran-Barbieri, Maura Campanili e Carlos A. Nobre e por mim.


Esse estudo, considerando sistemas produtivos e políticas públicas já empregados no país, corrobora com as principais conclusões de centenas de cientistas internacionais. Segundo o último relatório especial do IPCC – Climate Change and Land, o uso sustentável da terra e a melhor gestão florestal são estratégias de mitigação “livres de arrependimentos”. Elas também são importantes para a adaptação e resiliência climática, além de contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.


No que tange às florestas, o documento do IPCC sinaliza que a sua manutenção é um dos caminhos, destacado como altamente benéfico, para o enfrentamento dos desafios apontados pelos cientistas: segurança alimentar, mitigação, adaptação, desertificação e degradação. Além disso, afirma que a única forma de mitigar os impactos das mudanças climáticas sem correr o risco de gerar outros desafios é por meio da redução do desmatamento e da degradação. O relatório também observa que a preservação e a restauração da vegetação nativa contribuem significativamente para a redução da pobreza e da fome e melhoria da saúde, água potável e saneamento. Também contribui para questões relacionadas aos indígenas, gênero e desigualdade.


O solo atua ao mesmo tempo como fonte de gases de efeito estufa e sumidouro de carbono. A forma como ele é manejado vai dizer para qual lado essa equação tenderá. No Brasil, apesar do aumento expressivo do desmatamento nos últimos anos, os solos capturam quantidades significativas de GEE. Por exemplo, segundo dados levantados no sistema SEEG, entre 2009 e 2018 os solos foram responsáveis pela captura de, aproximadamente, 1,14 gigatonelada (Gt) de CO2, quantidade capaz de neutralizar mais da metade das emissões de todos os setores em 2018 no país, ou neutralizar todas as emissões da agropecuária por, aproximadamente, 2 anos.


O Brasil já possui importantes políticas em vigor nesse sentido. Essas soluções incluem modelos previstos em programas, como o -ABC - Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura - e o Planaveg - Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa. Ambos podem ser replicados em qualquer parte do mundo. Esses planos podem ter um papel relevante de adaptação às mudanças climáticas, ajudando os produtores a tornar suas lavouras mais resilientes aos eventos climáticos extremos. São as chamadas “soluções baseadas na natureza”, especificamente “soluções baseadas na terra”.

Soluções climáticas baseadas na terra: benefícios além da mitigação


A agricultura regenerativa ou de baixo carbono e a recomposição e manutenção florestal são atividades complementares que vão além da mitigação das emissões de gases de efeito estufa. Conjuntamente, contribuem também para conservação e provisão de diversos serviços ecossistêmicos dos quais a agropecuária e as cidades dependem fortemente. A seguir, um resumo dos principais cobenefícios advindos da implementação de políticas agropecuárias regenerativas e de restauração constatados pelo Working Paper brasileiro.

Tabela 1. Alguns dos cobenefícios esperados a partir da adoção das principais tecnologias do Plano ABC e PLANAVEG.

OC = ondas de calor; S = secas; DSC = dias consecutivos sem chuvas; DN = desastres naturais; CAS = conteúdo de água no solo; FS = fertilidade do solo; CS = conservação do solo; AA= Ambiência Animal; POL = polinização. Aumento = ↑; Redução = ↓; Sem alteração = s.a.; Não se aplica = n.s.a.


Os principais benefícios das diversas ações do Plano ABC como estratégia de adaptação às mudanças climáticas também acarretam em redução da evapotranspiração, dos danos das enchentes, da erosão causada pelos ventos fortes, da necessidade de uso de fertilizantes e agrotóxicos. Ao mesmo tempo auxiliam no controle de pragas e doenças e na manutenção e aumento da produtividade, além de, em geral, proporcionarem aumento da renda líquida do produtor e da geração de empregos no meio rural.


Os sistemas agroflorestais são ótimos exemplos de sistemas regenerativos orientados pelo caráter sistêmico da produção agropecuária, condicionada pelo clima e disponibilidade de recursos naturais, impondo uma abordagem sustentável de gestão de paisagens, na qual o desenvolvimento do setor agropecuário não se sustenta sem a conservação dos recursos naturais, a redução da degradação dos ecossistemas, a restauração dos biomas e a adoção de sistemas produtivos de baixo carbono.

Benefícios econômicos e financeiros da adaptação da agropecuária.


No mesmo Working Paper também foram retratadas questões relacionadas aos benefícios econômicos e financeiros da adaptação da agropecuária. Propõe uma matriz para ajudar investidores, agentes financeiros e empresas seguradoras nas avaliações de risco, a qual mostra o potencial de resiliência e de adaptação às mudanças climáticas dos principais sistemas de produção e de restauração preconizados pelo Plano ABC e pelo Planaveg.


As práticas regenerativas e da restauração da vegetação nativa (em seus mais diversos arranjos) são oportunidades para a redução do risco do financiamento e devem ser consideradas entre os instrumentos econômicos e mecanismos financeiros para a agropecuária. A construção de uma agricultura sustentável em harmonia com a paisagem, envolvendo o capital natural, a produção sustentável e a governança participativa e transparente, é um importante mecanismo de adaptação conjunta entre os planos de baixo carbono e restauração e, consequentemente, de diminuição de riscos ao financiamento de atividades agrícolas e florestais nessas áreas integradas.


Indiretamente, para operações tradicionais de crédito, os bancos já incorporam em suas análises um dos serviços ecossistêmicos extremamente importante que é a provisão da água. Diversos agentes possuem suas próprias ferramentas de análise de risco para esse serviço ecossistêmico específico. Por que não expandir e incluir, nas análises de risco dos produtores rurais, os demais serviços ecossistêmicos e ambientais prestados pela restauração e outras práticas regenerativas? A proposta é de valoração dos serviços ecossistêmicos, em especial a conservação do solo e sequestro de carbono, que podem minimizar os impactos negativos da mudança do clima na agropecuária, bem como proporcionar financiamentos diferenciados da safra ou atividade pecuária, como menores taxas de juros, ou auxiliar produtores no acesso aos mercados voluntários de carbono.


No entanto, todo esse pacote de benefícios elencados no working paper com a adoção na propriedade de práticas regenerativas e manutenção dos ativos florestais, ainda não se reflete nos números de desembolso do crédito rural. Entre 2013 e 2018 foram financiados em média R$ 39,00/ha/ano para sistemas integrados, enquanto que no mesmo período foram investidos R$ 613,00/ha/ano para a cultura solteira da soja. Outra informação alarmante do estudo diz respeito aos valores desembolsados para adequação ambiental das propriedades de apenas R$ 45 milhões contra mais de R$ 400 milhões para atividades que promoveram a supressão da vegetação nativa.


Mais desmatamentos nas florestas e degradação dos solos culminarão na rápida destruição desses que representam importantes estoques de carbono, acelerando efeitos das mudanças climáticas que em alguns casos já são irreversíveis. Reverter esse quadro depende de transformações na forma como o nosso alimento é produzido. Tais desafios devem ser encarados como oportunidades de negócios. Ferramentas, profissionais capacitados, metodologias, marcos legais, entre outros aspectos relevantes para essa transição, existem. A construção do conhecimento é dinâmica. A continuidade dessa estruturação, junto com ações efetivas em diferentes frentes (econômica, acadêmica, extensionista, jurídica etc.), é prioritária e urgente.

Mais informações


No Working Paper “Papel do Plano ABC e do Planaveg na adaptação da agricultura e da pecuária às mudanças climáticas” podem ser encontradas informações detalhadas sobre os benefícios de sistemas produtivos ABC como estratégia de adaptação e resiliência às mudanças climáticas (https://wribrasil.org.br/pt/publicacoes/papel-do-plano-abc-e-do-planaveg-na-adaptacao-da-agricultura-e-da-pecuaria-mudancas).

IPCC – Climate Change and Land. Special Report on climate change, desertification, land degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems. Disponível em: https://www.ipcc.ch/srccl/

Plano ABC - Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sustentabilidade/plano-abc/plano-abc-agricultura-de-baixa-emissao-de-carbono

Planaveg - Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa. Disponível em: https://www.mma.gov.br/florestas/pol%C3%ADtica-nacional-de-recupera%C3%A7%C3%A3o-da-vegeta%C3%A7%C3%A3o-nativa.html

*Susian Martins, consultora associada da Pangea Capital. Engenheira Agronômica pela UFSCar; com Mestrado e Doutorado pela USP.

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