ÁGUAS DE MARÇO: UMA PROMESSA DE VIDA?

Nº37



01 DE ABRIL, 2016


“É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã

É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração”


Apesar da célebre música acima, de Tom Jobim, ter sido escrita em um momento de fossa e em que tudo parecia ter acabado, ela traz uma mensagem final de esperança. A letra aproxima a imagem da "água" a uma "promessa de vida", símbolo da renovação.

Sempre achamos que o Planeta Terra deveria ser chamado de Planeta Água, mas a realidade não é bem assim. Na imagem abaixo, a gota maior representa toda a água do mundo, a do meio mostra toda água doce, e o pequeno ponto azul representa a água doce dos rios e lagos da Terra. Enquanto a água cobre 71% da superfície da Terra, o que nos dá a noção de uma grande quantidade, ela representa apenas 0,02% da massa total do planeta.


Figura 1. A água do planeta

Créditos: Howard Perlman / Woods Hole Oceanographic Institute


Isso faz com que muitas regiões convivam com um cenário de estresse hídrico devido à baixa disponibilidade de água, como é caso do Nordeste Brasileiro, da Califórnia, nos Estados Unidos e de Israel, ou devido à baixa qualidade, como em muitas regiões metropolitanas.


Recentemente, devido à combinação desses dois fatores, com alguns ingredientes a mais, as regiões Sudeste e Centro-Oeste enfrentaram a maior seca dos últimos 100 anos.  As crises hídricas, que até então eram cíclicas, foram agravadas pela falta das famosas “águas de março”, fazendo com que nossos mananciais e torneiras secassem e comprometendo a atividade industrial e agrícola. Nesse período, muita gente foi pega de surpresa: de restaurantes a grandes indústrias e o poder público.


Este ano, o problema brasileiro parece ter sido resolvido. As chuvas de verão vieram com tudo, enchendo novamente grande parte dos nossos mananciais. O volume do Cantareira chegou em 33%, o do Alto Tietê em 43%, enquanto o do Guarapiranga em 87,6%. Com isso, voltamos à época da aparente abundância.


No entanto, será que só as águas de março são suficientes para uma promessa de vida?


Definitivamente não! A crise hídrica, é, sobretudo, falta de planejamento e investimentos em obras de infraestrutura hídrica (mais informações no nosso próximo blog!), algo já crônico nas grandes metrópoles brasileiras. O que estamos vendo nesta crise recente é o agravamento da situação por uma seca histórica. Isso não é novidade, em 2010, a Agência Nacional de Águas (ANA) indicava que eram necessários R$ 22,2 bilhões de investimentos, até 2015, para a garantia do abastecimento de 55% dos municípios do país, os quais possuem condições críticas em relação à disponibilidade de água.


No entanto, até hoje, muito pouco foi feito. Se continuarmos dessa forma, a população, principalmente carente, vai continuar sofrendo com a escassez ou com uma água com péssima qualidade para consumo e o setor produtivo vai continuar sucumbindo e tendo sua produção paralisada. Ano passado, indústrias do setor de bebidas e papel celulose passaram a direcionar investimentos para fora de São Paulo. A AMBEV e Coca-Cola, por exemplo, investiram juntas mais de R$ 2,4 bilhões em plantas no Paraná. Outro caso emblemático é o da Rhodia. A empresa química, pertencente à Solvay, desativou unidades de produção na fábrica de Paulínia (São Paulo) porque o rio de onde a empresa coletava água estava secando.


O que então o setor produtivo deve fazer para estar preparado para crises futuras?


Até pouco tempo, a gestão dos recursos hídricos era focado apenas no atendimento legal e na melhoria do desempenho operacional. Hoje, torna-se imperativo uma gestão mais abrangente, englobando ações que vão desde o entendimento de como a empresa interage com a bacia hidrográfica local, até o envolvimento da cadeia de valor e articulação setorial (figura abaixo).

Figura 2. Evolução da gestão dos recursos hídricos.

Fonte: CEO Water Mandate, 2012; CEBDES, 2015.


Assim, dentro dessa evolução, vale a pena destacar alguns passos importantes: elaboração da pegada hídrica, realização de uma análise de riscos e elaboração de um plano de adaptação. A metodologia mais utilizada para o cálculo da pegada é a Water Footprint[1]. Já as análises de riscos variam de organização para organização, mas devem sempre levar em conta a exposição dos ativos da empresa, sua vulnerabilidade e resiliência. Por fim, um plano de adaptação deve conter medidas para antever uma crise, bem como ações emergenciais.


A Pangea Capital trabalha com a mensuração (pegada hídrica) e gestão dos recursos hídricos, identificando as operações e cidades mais sujeitas ao estresse hídrico e elaborando planos de adaptação para um cenário de escassez.  Também promove workshops técnicos e comportamentais, com o objetivo de engajar as organizações para a preservação e gestão desse recurso.


Texto escrito por Lígia Carvalho, colaboradora da Pangea Capital


[1] O método é mantido pela Water Footprint Network, organização não governamental internacional que produz conteúdo científico e promove a conscientização para o uso responsável da água.


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